O açúcar, uma das commodities mais negociadas do agronegócio global, ganhou um novo alerta sanitário: um experimento conduzido por cientistas brasileiros associou o consumo excessivo do adoçante ao agravamento acelerado da inflamação pulmonar em indivíduos asmáticos. A pesquisa, publicada na revista Nutrients e financiada pela Fapesp, mostra que camundongos expostos a altas doses de açúcar, via leite condensado, desenvolveram piora severa no quadro inflamatório das vias aéreas em apenas 14 dias, algo que em humanos corresponderia a cerca de dois anos de consumo intenso.

Os resultados, obtidos a partir de um modelo experimental com animais, indicam que o açúcar pode atuar como um gatilho para crises alérgicas em pacientes que já convivem com a asma, uma doença inflamatória crônica que afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo. A rapidez do efeito é o ponto mais inédito do estudo, segundo os pesquisadores, e acende um sinal de alerta para a necessidade de incluir a dieta no manejo da doença.

Entenda o experimento com camundongos

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores da UFABC e da Unifesp mantiveram a alimentação padrão dos camundongos, mas liberaram também o acesso a leite condensado, uma fonte de açúcar altamente concentrada. Em duas semanas, já foi possível observar efeitos negativos significativos nos animais, o que equivale, em termos de expectativa de vida humana, a um período de aproximadamente dois anos. Essa é a primeira vez que um modelo experimental de asma documenta uma progressão tão rápida da inflamação pulmonar associada ao açúcar.

De acordo com a professora Caroline Marcantonio Ferreira, do Centro de Ciências Naturais e Humanas da UFABC, o achado tem implicações tanto na prática clínica quanto na formulação de políticas públicas, pois mostra que mesmo uma alergia preexistente pode ser agravada em um intervalo de tempo curto. A cientista destacou que, apesar de o consumo de açúcar ser tradicionalmente ligado a cáries e obesidade, o impacto sobre doenças respiratórias crônicas raramente é considerado.

A inflamação na asma e o papel do açúcar

A asma é caracterizada por um processo inflamatório que leva ao espessamento dos brônquios, aumento da produção de muco e obstrução das vias aéreas. A resposta imunológica típica envolve a liberação de moléculas pró-inflamatórias e a produção de imunoglobulina E, anticorpo associado a reações alérgicas. Segundo os autores, o consumo elevado de açúcar parece potencializar esse mecanismo, ampliando o risco de episódios agudos.

Os pesquisadores alertam que, assim como mofo, poeira e poluição são fatores ambientais conhecidos por desencadear crises, o açúcar deve ser tratado como um fator de risco controlável. O coautor do estudo, Mateus Casaro, bolsista de doutorado da Fapesp na Unifesp, enfatizou que a adequação da dieta é uma estratégia de baixo custo, acessível e eficiente, que deveria ser implementada de forma complementar ao tratamento medicamentoso dos pacientes asmáticos.

Mercado de açúcar e implicações para o setor

O estudo chega em um momento em que a cadeia produtiva do açúcar acompanha de perto a demanda global por alimentos e alternativas mais saudáveis. A commodity movimenta bilhões de dólares por ano, e o consumo residencial tem sido alvo de pressões regulatórias em diversos países. Ainda assim, especialistas ponderam que a redução do açúcar na dieta não deve ser confundida com uma demonização do produto, mas sim com a necessidade de equilíbrio no consumo, especialmente entre crianças e portadores de doenças crônicas.

Você pode acompanhar os indicadores e o mercado de commodities em tempo real aqui na SpaceMoney. A discussão sobre saúde e dieta tende a influenciar tendências de consumo e, consequentemente, as cotações futuras derivadas do setor sucroenergético.